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A deportação de brasileiros na Espanha é o assunto do momento.
Tenho lido as reportagens e escutado várias opiniões a respeito.
Tem os indignados, que acharam a atitude preconceituosa e arbitrária.
Tem também os que tem pouca ou nenhuma auto-estima e acham que brasileiro é tudo vagabundo mesmo e a imigração espanhola está certíssima.
Trabalhei por mais de 20 anos em companhia aérea, e vi coisas que até Deus duvida em termos de deportações, não só de brasileiros, como de pessoas de várias nacionalidades.
Daria para escrever um livro... É verdade que pegam pesado sim. Não só na Espanha, mas em qualquer país de "primeiro mundo", onde as pessoas do "terceiro mundo" vão tentar uma vida melhor. Nos Estados Unidos então, nem se fala...
Também é verdade que por conta disso cometem muitas injustiças, baseadas na idade, no tipo físico, no não-domínio da lingua, o pobre viajante pode ser enquadrado na categoria de persona non grata e ser obrigado a dar meia volta.
Quanto ao tratamento dispensado aos "indesejáveis", sem comentários! Ser tratado como um cão, quando na verdade nem um cão (muito menos um cão), merece esse tipo de tratamento.
O melhor remédio para minimizar isso (porque acabar não vai), é a lei da reciprocidade. Pente fino na chegada dos estrangeiros por aqui, o as personas non gratas voltariam a seus países no mesmo pé que vieram.
Vou relatar um causo, presenciado por mim, que demonstra como deveria ser um tratamento a um cão.
Tínhamos um vôo para Angola, denominado pelos tripulantes de mata-bicha. Termo politicamente incorretíssimo, que fazia alusão aos muitos gays que entravam na aviação sonhando com o circuito Elizabeth Arden (Paris, Londres, New York).
Eram sete horas de vôo do Brasil até Angola, uma hora em solo para reabastecer, limpar o avião e embarcar novos passageiros, e mais oito horas de vôo (com o vento contra), atravessando o Atlântico para voltar ao Brasil.
Dá para imaginar o estado glamouroso em que chegávamos...
Num desses vôos, durante o embarque em Angola, um passageiro consternado veio falar conosco.
Ele era funcionário de uma empresa de construção civil brasileira, e estava retornando com sua família depois de passar dois anos na Africa.
O problema é que a família tinha adotado um membro extra. Um simpático cãozinho vira-lata, que foi impedido de embarcar porque a caixa na qual ele deveria ser acondicionado no porão havia quebrado.
A família toda aos prantos, não queriam abandonar o cão e não tinham tempo hábil para providenciar uma nova caixa, foram implorar nossa ajuda.
Diante de tal situação, tínhamos que fazer alguma coisa.
Fomos falar com o comandante e explicar a situação. Por sorte, ele entendeu, e nos disse que o cachorro podia embarcar na cabine de passageiros, desde que nós cuidássemos para que ele se comportasse.
E lá fomos nós de volta para o Brasil. O cãozinho se mostrou um verdadeiro gentleman. Não latiu, não correu e nem deu nenhuma alteração.
Lá pelas tantas, estava o bichinho no colo de uma das crianças olhando pela janela, quando um passageiro mala-sem-alça (sempre tem um...) veio tomar satisfações de como era possível um cachorro estar na cabine de pasageiros olhando pela janela, que era um absurdo, que isso, que aquilo...
Então eu, fazendo minha melhor cara de paisagem respondi-lhe:
"Meu senhor, o cão está aqui porque foi autorizado pelo comandante.
Como ele não toma bebida alcoólica, não tem perigo dele se tornar chato, agressivo, nem inconveniente como muitos seres humanos.
Ele não reclamou da comida, nem do assento que lhe foi destinado, nem dos filmes disponíveis para entretenimento.
Como ele não fuma, o senhor não vai ve-lo fumando em pé no meio do corredor incomodando os outros, nem jogando cigarro aceso na lixeira do banheiro. (na época podia fumar à bordo)
Se ele está olhando pela janela é porque está apreciando a viagem.
Tem mais alguma coisa que eu possa fazer pelo o senhor?"
O cara não falou mais nada e foi quietinho até o Galeão.
Chegando aqui, fomos interceder pelo cãozinho junto à imigração, explicando a situação.
Não sei se naquele dia estavam todos de bom humor, ou se também gostavam de cachorros, ou se São Francisco estava de plantão naquele dia e deu uma forcinha.
Mas o fato é que o cachorrinho angolano naturalizou-se brasileiro e todos ficaram felizes!
criado por lucy in the sky
09:08:23